Notícia

Biofiltro pode facilitar acesso à água de qualidade em comunidades ao longo do Amazonas

Tecnologia social está sendo desenvolvida pela UFOPA para atender famílias rurais


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Aline da Paixão, UFOPA

Fonte

UFOPA

Data

domingo, 22 março 2015 11:15

Áreas

Biotecnologia.

Cerca de 260 comunidades do município de Santarém vivem na maior bacia de água doce do planeta. Na várzea do Amazonas, elas conseguem desenvolver a agricultura e criar animais durante seis meses. Na outra metade do ano, o rio inunda as partes mais baixas da várzea. Mesmo cercadas pelo rio, essas comunidades enfrentam o sério problema de não ter acesso à água de qualidade.

Sem sistema sanitário ou mecanismos que permitam a captação de águas do lençol freático, as populações consomem a água do rio. Apesar de farta, essa não é a opção mais segura para as famílias. “Com o desenvolvimento da população ribeirinha, a água do rio não está mais só com sedimentos. Hoje, há a intensificação da navegação, com maior quantidade de embarcações, e os dejetos que são lançados no rio contribuem para a sua contaminação”, explica o Prof. Dr. Manoel Roberval Pimentel Santos, do Instituto de Engenharia e Geociências (IEG) da Universidade Federal do Oeste do Pará (UFOPA). Além disso, a maioria das famílias usa fossas rudimentares, que também contaminam o rio no período da cheia.

Para quebrar essa contradição, o professor coordena a pesquisa de um filtro de baixo custo e sustentável produzido a partir do caulim, uma argila comum na região, popularmente conhecida como tabatinga. O caulim permite a formação da zeólita, um material com estrutura cristalina capaz de reter determinados elementos. Ela funciona como uma peneira molecular e é utilizada industrialmente na composição de detergentes com a função de remover moléculas de gordura, por exemplo.

Atualmente, o filtro está em fase de testes. Tatiane Costa, aluna de Engenharia Física da UFOPA, explica como ele funciona: “A água é colocada em um tubo, onde passa por camada de areia e carvão ativado e depois goteja em um segundo tubo, que dá acesso à zeólita”. A zeólita é utilizada em forma de pastilhas porosas, que são produzidas a partir da mistura com pó de serragem.

Após a filtragem, a água é submetida a análises físico-químicas para verificar se houve retenção de matéria orgânica, bem como alterações na acidez, turbidez e odor. Além disso, a pesquisa também vai verificar se as pastilhas de zeólita são capazes de eliminar coliformes fecais e bactérias. Testes com água de esgoto pré-tratada já mostraram bons resultados na coloração e alguns parâmetros físico-químicos. A análise de potabilidade se baseia na Portaria nº 2914/2011 do Ministério da Saúde e na Resolução nº 357/2005 do Conselho Nacional do Meio Ambiente (Conama).

Se conseguirmos demonstrar que a zeólita pode fazer essa filtração junto com o carvão ativado e a areia, que são materiais com custo muito baixo, poderemos manipular e produzir em grande quantidade para distribuir futuramente para as comunidades ribeirinhas. Vai ajudar na saúde, principalmente, já que vários casos de doenças ligadas à água ocorrem com uma frequência muito grande nessas comunidades”, afirma Tatiane.

Tecnologia social para tratamento de água

O Prof. Roberval explica que o biofiltro faz parte de uma proposta maior de desenvolver um microssistema integrado de geração de energia elétrica, captação e tratamento de água para comunidades de várzea do Amazonas, com a proposta inicial de atender 40 famílias na região. “Eles têm um grande problema, que é a falta de energia e água. A falta de energia é mais compreendida porque como essas comunidades não têm ligação em terra firme com a sede do município é difícil ter disponibilidade de energia elétrica porque demandaria um custo elevado”, explica.

A ideia do projeto é gerar energia elétrica com painéis solares, para acionar bombas de baixa potência que captarão a água do rio ou de um poço de até 30 metros de profundidade. A partir daí, a água seria tratada, passando por um processo de decantação para a retirada de excesso de sedimentos, filtragem e cloração.

Segundo o professor, essa é uma alternativa viável porque a Amazônia tem um grande potencial solar: “Apesar de a nossa região ter a ocorrência de muitas nuvens, a radiação solar é bastante intensa. Nós somos a segunda maior região do país com potencial de energia solar, ficando atrás apenas da região Nordeste”.

Paralelamente ao sistema de filtragem, também estão sendo desenvolvidos microssistemas de energia a partir de placas solares e de tratamento de água em outros dois projetos coordenados por ele. Com os resultados parciais, será possível delimitar as próximas ações junto às comunidades, que devem buscar não só o fornecimento de água potável para consumo, mas também fomentar a produção agrícola.

Os projetos são realizados no âmbito dos programas de iniciação científica, desenvolvimento tecnológico e inovação e extensão (Pibic, Pibiti e Pibex), e o grupo de pesquisa liderado pelo professor está em busca de financiamentos para custear e melhorar o desenvolvimento das pesquisas.

“Essa contradição me inquieta bastante: como é que essas pessoas, que vivem dentro da água, têm problema de água? É papel da Universidade buscar soluções alternativas e sustentáveis. A UFOPA foi criada com o objetivo de diminuir essas contradições”, conclui o professor.

Fonte: Luena Barros, Comunicação UFOPA. Imagem: Aline da Paixão.

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